sábado, 6 de novembro de 2010

l'absente

Like an ancient day and I'm on trial
Let them seize the way, this once was an island
And I could not stay for I believed them
Left for the lights always in season

Eu disse a um tal de José Carlos, um enfermeiro que descansava do plantão no portão da casa, coisa que o homem não deve ter concebido, mas ouviu-me com olhos mais carinhosos que cansados. Hábito de enfermeiro, talvez. Por certo muitos velhinhos machucados contam causos pra esquecer a dor. Por certo foi o que eu fiz.

- O mais estranho, moço, é não sentir falta por falta de humanidade. Pois, vou contar: estou há dias sentada no mesmo sofá ouvindo as mesmas coisas. Lá eu durmo, estudo, escrevo e penso. Como sardinhas todos os dias, vejo os mesmos rostos do Brasil-não-descoberto de 510 anos atrás, uma cadelinha adorável que respeita os limites do além porta da cozinha, pais e filhos ocupados, e umas gotas de suor entre meu joelho e calcanhar. Vejo luzinhas também… Pequenos ovnis a qualquer lugar que olhe. Agora sou uma ladra de leite, sardinhas e espaço. Sair? Adoecer. É abafado, não tem brisa que traga notícias de nada. A melhor parte do dia é quando os burros zurram e lembro de alguma coisa… Amélie Poulain, talvez. Sinto falta, moço, de sentar na sombra dos banquinhos de pedra da praça Dom Adauto e só.

- Onde fica isso?
- Não fica…

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